Textos


akykunóy. Paraisópolis, Minas Gerais, Brasil—26Jul2025

JACARÉ VERMELHO

 

Damos aos talhões dos cafezais o nome da árvore silvestre predominante em cada um. Assim, temos o Angicos, o Dois Ipês, o Coqueirinho, o Ingazeiro de Cima, o Jacaré, o Guatambu etc. Tem até o Árvore do Raio (um fruto-fato-trevo-de-quatro-folhas de quem saiu de debaixo dele instantes antes de uma fatídica faísca que o fatiaria. Essa é uma história real, e o sortudo foi o Toninho.), que é um pé de galho seco, que eu não lembro do que era. Acho que Pau-marfim que chegou ao seu fim... e isso é quase uma certeza. O quê? A espécie ou o fim do espécime? A rima, a poesia! Deixe-me falar de especiaria.

 

Ao explicar isso a um visitante —e isso estou inventando— que lia as etiquetas de identidade dos cafés no terreiro, ele teve uma dúvida:

__Mas esse não tem nome de árvore.

__Qual?

__O Sombreado.

“E no cafezal tem alguma casa, por acaso?”, pensei, sem dizer o que o capataz bruto teria dito.

E é verdade pura o que vem a seguir.

__É o talhão mais bonito, mais completo, em que não se faz como fazenda, mas como floresta.

__Mas floresce?, indagou ele, acostumado a plantio a pleno sol. (Isso eu supus. Já estou na suposição da invenção. É preciso plantar.)

__Tanto quanto quem viu conhece.

(Trabalhei com cafeeiros selvagens em seus bosques de origem. Arábica, na Etiópia. Canéfora, em Uganda. Excelsa, no Sudão do Sul.)

__Acho que esse tanto de semente, que agora você toca, não veio de benesse: flores mais lentas, flores mais vezes; frutos maiores, frutos mais doces: especiarias de fino trato. (N)O bosque também (se) trabalha, com mãos menos brutas e olhos mais aguçados. Juntos, mãos e olhos açucarados. É preciso ler a paisagem, mais do que (o) poema: às vezes, brota; às vezes, poda. Quando chove, nem chegar a gente pode. Não se colhe... mas se planta... ou somente se descansa. Tem uma fase da lua que é para o recesso. É quando tomo, sem pressa, o café mais forte que conheço. Me lembra o cê-cedilha, em alça de xícara, implícito nele do açúcar que não coloquei, mas que plantei. Plantamos. Plantemos!

 

 

 

 

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Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 26/07/2025
Alterado em 26/07/2025
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