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MINHA CARTA

 

A contar do início da faculdade na Universidade Federal de Lavras (Ufla), foram exatos vinte anos de agronomia, sendo cinco anos de estudo, cinco de atuação como engenheiro agrônomo em Minas Gerais e São Paulo e dez anos de intenso trabalho de campo no centro-leste africano.

 

Sou e serei eternamente grato a tudo que a agronomia me proporcionou, de malárias a malatos —sempre foi preciso muita energia morro acima em busca da cafeína—, de viroses a vigores, de Burundi a Uganda —esta, berço do café robusta—, da Tanzânia a RD Congo, de Ruanda à Etiópia —esta, origem do café arábica—, de infortúnios a sucessos —produzi o café mais ecologicamente sustentável da Tanzânia e os melhores cafés arábica e robusta de Uganda, em termos de qualidade de bebida.

Só nessas glebas, uma década de labuta. Permita-me três exclamações seguidas. Quantas coisas vividas! Experiências que nada nem ninguém tirarão de mim! Honrado e grato! 

 

Aos mais próximos, dei sinais de que gostava mais dos de pontuação do que dos de doenças e desequilíbrios nutricionais dos vegetais. Os demais, enganei bem. Nunca gostei de agronomia nem de sua engenharia. Falta de tentar não foi. Irrigação? Trator? “Do que se trata?”, perguntarei. Tranquei esse curso superior duas vezes, querendo fazer outra coisa, mas fiz enorme esforço para concluí-lo, muito diferente de dedicação.

 

Gostava mesmo de cafeicultura. Hoje, não o tanto para continuar tentando. Por isso, esse passado tempo verbal. Era café e só! Eis-me do café querendo só o pó. Bebo muito café. Mas tomo, com ainda mais prazer, depois de tê-lo deixado esfriar. Aprecio-o frio, mas passado na hora.

 

O café é algo mágico. O ritual etíope de preparo e degustação de café com ervas aromáticas é o mais belo exemplo. Inebriante! Provei-o, pela primeira vez, em Harenna, uma de suas fontes, aonde fui a trabalho. Que lembrança boa! Trouxe-me o cheiro. Juro que não me lembro do gosto.

 

Infelizmente, a mágica vem dando lugar à máfia. Em quinze anos de trabalho com cafeicultura, tive minhas crises com ela. Nenhuma novidade em se tratando de mim. Bebi muitos cafés para contorná-las. Mas uma dessas brigas, nem com litros de café —que eu bebo!— eu consegui superar: a exploração abusiva, por parte de grandes empresas, dos minúsculos produtores de café. Em dez anos na África, assisti 33 mil agricultores, com uma média de 222 cafeeiros por roça.

Para alguns desses exploradores, em sua maioria exportadores, eu até trabalhei, chegando a dar consultorias à fortíssima milícia do café em certo país. Incorreto. Para outras empresas, com modelos de negócios opostos à injustiça, eu me orgulho de ter trabalhado.

Dói saber que o pequeníssimo agricultor deixa de plantar a própria comida para cultivar café e, ao vendê-lo, não arrecada o suficiente para pagar por uma refeição nutricionalmente satisfatória para ele e sua família.

 

Não me inquira sobre a fenologia do feijão, o ciclo da cana (vou escrever “cana-de-açúcar” pelo prazer da hifenização), algo acerca do algodão, melhor mês para o milho, pragas do pomar et cetera (pelo prazer da não abreviação). Em matéria de horta, um à toa. Matéria orgânica, no máximo, me chama a atenção, apesar de nunca ter ido além de cinco por cento de seu conhecimento. Jardim também não é pra mim. Cativa-me mais saber diferenciar entre “a grama” e “o grama”, pelo êxtase de conhecer a língua e suas gradações. Confundo arado com grade e vice-versa, isso sim. E é verdade... e é vergonha.

 

Enxada pendurada! Embora no ponto de exclamação a cabeça esteja pra baixo e o cabo, pra cima. Não importa. Sempre capinei nada. Recomendei muito boro, em pequenas quantidades.

“Vou-me embora pra Portugrila. Já vim. Aqui sou amigo de mim.” Café? Pra dentro... to... copo!

 

 

 

 

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Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 14/01/2023
Alterado em 15/01/2023
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