Textos


LIGAÇÕES, FECHAMENTOS E REMENDOS
 
Uma coisa ligava-se à outra.
 
Toda vez que via um clipe de papel ou botão de roupa no chão, a visão periférica embaçava, não percebendo que o clipe não era de papel e o botão não era de roupa, ficando o foco todo no clipe ou no botão.
 
Era tomado por uma satisfação inigualável: “Mais um. Preciso pegar pois um dia vou precisar.”. E um contentamento tão inebriante que, para pegá-los, agachava-se cambaleante, tomado de vertigem.
 
E, toda vez que os pegava, vinha uma coceira na cabeça. Coçava-a e, então, caía um fio de sua barba.
 
Um dia, em uma rua movimentada, viu um botão no chão. Receoso de que faria papel de louco, não o pegou. Mas não o ignorou por inteiro, pois ficou pensativo com o item desperdiçado. Como quem raciocina, pôs a mão no queixo. Caíram dois de seus dentes da frente. Voltou atrás na decisão e no roteiro. Agachou-se, pegou o único botão e o pôs num dos novos vãos da dentição.
 
Ao primeiro que sorriu, ouviu: “O zíper está aberto.”. Remendou com um clipe, que surgira-se, sabe-se lá, de onde. Talvez do papel de louco.





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quando: 28/10/2020
onde: Uganda, Buinde
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 17/11/2020
Alterado em 17/11/2020
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