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Grilo Tritri
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Textos
AO FATO O QUE FOI DE RATO
 
Era início de junho de 2010. Não fazia nem um mês que eu chegara à Tanzânia. Eu tinha me mudado de Moshi, cidade linda na região do Kilimanjaro, para Kigoma, tão bonita quanto na região homônima. Do norte para o leste do país.
 
Todo dia, no mesmo horário, o mesmo barulho de bicho caminhando no forro. Era eu apagar a luz e o barulho começar. Então, o barulho era no mesmo horário porque eu era disciplinado com o horário de dormir ou porque o bicho era disciplinado com o horário de acordar?
 
Era uma casa grande, exatamente às margens do Lago Tanganica, de onde eu ouvia suas ondas. Tinha uma suíte, em que eu ficava, e cujo forro do teto era de madeira e bem baixo, gerando um calor insuportável, ainda mais com a única janela a menos de um metro de distância de um muro comprido e alto, impedindo a circulação razoável de ar. Tinha mais dois quartos, duas salas, uma cozinha com copa e outro banheiro. Um palácio para quem ama uma quitinete.
 
A casa inteira só pra mim. Bem..., não era bem assim. Havia ratos pela casa toda, não somente esse que parecia ter uma espécie de sensor para dar início ao turno noturno. Era tanto rato que o intruso na casa era eu. A tela mosquiteira sobre a minha cama era parque de diversões por onde eles passavam escalando descaradamente. Uma coisa todos aqueles ratos não eram: sorrateiros. Agiam na maior cara dura, a qual, determinadamente, me pus a querer quebrar.
 
Comprei cinco ratoeiras. Um número insignificante para a quantidade de ratos que, mais tarde, eu estimaria ‘criar’. Até então, eu não tinha me dado conta dessa conta. Comprei só para experimentar. Ensaios falhos. As cinco armadilhas amanheceram desarmadas, sem as iscas e sem as vítimas. Erro meu. Perdi a primeira batalha. Cinco tiros errados que, ainda, alimentaram os alvos. 
 
Ainda determinado a dar um fim nos meus anfitriões, comprei veneno. Um pó branco que disseram-me ser um tiro certeiro, mas perigoso, pois muitos convivem com os ratos em suas casas para abatê-los no ponto certo para comê-los. Não me importei com isso. Minha repulsa, nojo e incômodo eram maiores do que minha compaixão e, talvez, discernimento. Sou mais carnal do que carne de rato.
 
Eu não sabia, exatamente, onde eram os ninhos. Coloquei o veneno pelos caminhos pelos quais eu os via passar. Não digo que foi tiro e queda porque eles não são bípedes. Foi tiro e tombamento. Notei a efetividade do método ao ver cada vez menos a circulação dos ratos.
 
Eu não sabia onde eram os ninhos até que eu tive que descobri-los seguindo o mau cheiro. A cada dia, ratos morrendo. Uma vez envenenados, foram morrer nos ninhos. A casa inteira fedendo carniça e eu seguindo o fedor farejando – ao olfato o que é rato –, para me desfazer dos corpos e cessar o incômodo. Não existia mais nojo nem repulsa. Havia satisfação. E o incômodo, que antes era da presença, agora era do falecimento.
 
Mas um deles, um grande notável deles, não morreu escondidamente. Morreu bebendo água de um vaso ao lado dos talheres na prateleira da cozinha, numa tentativa, talvez, de se desintoxicar. Cenário de um velório ou cardápio de um jantar a luz de velas.





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#foto#
quando: 19/06/2010
onde: Tanzânia, Kigoma
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 26/07/2020
Alterado em 07/08/2020
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